Ocorreu a um outro, mais experimentado que eu nas querelas cotidianas, referir-se ao uso da internet como um contato direto com a barbárie e a bile da boçalidade comum. Segundo esse testemunho a anonimidade que oferece o meio, ou a facilidade com que locupleta o ócio, são justamente as mentes menos agudas que os aproveitam, destilando em público aquilo que vai mal em seus fígados.
Não deixa de ser digno de nota, entretanto, que o próprio Dostoiévski, ao abrir suas Notas de Inverno sobre Impressões de Verão, um diário de viagem como se denota do título, mencione tão cedo complicações hepáticas, identificadas logo à entrada de seu quarto de hotel, e por um modo tão simples que faria John Fante envergonhar-se de ser prolixo: a coloração amarela que seu cuspe na pia apresentava como prova, com o que imediatamente se justifica seu mau humor, permitindo agora olhar em volta menos desconfiado e mais benevolente.
Não estou porém na posição de um Dostoiévski, e se ele julgava escrever mal devido à pressa com que se exigiam suas publicações, não é menos verdade que pôde esperar duas estações antes de concluir esse relato de viagem, o que nos coloca em posto muito mais desvantajoso, pois temos duas, às vezes uma semana de preparo, no máximo. Poderemos, talvez, nos conter no quesito bile, o que é mèdicamente recomendável, mas é possível que nosso esforço em não sacrificar a língua já não alcance o cuidado de quem escreve algo mais que um diário e ainda pretende levar a público o que antes deveria guardar em seu peito.
Não que minha vida esteja para ser exposta. Já Montaigne, ao se dispor a falar de si, não o fazia relatando feitos pessoais, senão esporadicamente e somente quando não encontrava melhor exemplo naquilo que era sim seu assunto: fatos vividos e contados nas histórias de seus livros, ou de seus contemporâneos, a quem soube apreciar --basta dizer de sua amizade com La Boétie-- e aqueles dos antigos --ele era um moderno, não duvidemos disso!--, os romanos e os gregos, por suposto.
Montaigne, o personagem, não aparecia no que relatava, portanto, mas na opinião que tecia sobre tais assuntos e temas. É benefício da posteridade, sem dúvida, que ele o tenha feito não a partir do rancor, mas de uma afeição ímpar por tudo aquilo que é humano. Infelizmente, também a ele não lhe poderemos fazer par, o que não deverá me impedir, mesmo assim, de proceder com generosidade. Pago desta maneira, pelo menos em parte, a dívida com aqueles que, sendo ou não objeto do meu relato, ainda serão sua razão e destino.
Um blog, portanto, é isto: parte relato de viagem, parte expressão de um modo de ser. Se é na pressa que nos expressamos melhor (é quase um fato que não nos expressamos de outra maneira --o que está dito, aliás, na própria expressão--), saibamos confiar nessa resoluta urgência do agora.

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