Até uma certa altura da vida, não saber o que fazer de certos impulsos, sentimentos, acreditar-se deslocado, isolado, único. E acreditar que é preciso revolucionar algo, criar algo, para conter isso que não se contém em parte alguma. E daí uma posição muito particular sobre o que é adequado e não adequado.
Num certo momento, porém, alguma coisa muda: vamos deixando de nos sentir inadequados, ou vamos mesmo deixando de ser inadequados. Ou então diminui a urgência de fazer o inadequado, ou descobrimos que nossa inadequação também tinha nome, que a teoria descobriu o lugar dessa inadequação, que portanto ele não mais precisa ser criado, mas simplesmente ocupado. Aquilo que era estranho passa a ter nomes comuns. O que descobrimos um dia com espanto, é de repente reconhecido como o familiar, o banal: nossa ingenuidade nos impedia de reconhecê-lo antes. É evidente, agora o sabemos, que nosso autodidatismo fôra deficiente, ou fomos demais petulantes. O que nos causava surpresa, agora o sabemos, já foi considerado pelas categorias aceitas, já foi pensado, medido, considerado. Apenas nós não o sabíamos, por ignorância, por imaturidade.
Concluímos, como resultado desse amadurecimento, que o nosso pensamento não tinha tanta força, tanta originalidade quanto acreditávamos. Ele não vai abrir novas portas, não vai construir --talvez nem mesmo descobrir-- novos mundos. Há que ter metas mais modestas, mais saudáveis. Não se pode aos trinta e dois, como aos vinte, querer conquistar o mundo.
Ou talvez eu apenas esteja cansado, de ter bebido demais ontem à noite, dormido pouco, e ainda ter que trabalhar.
Talvez nosso pensamento tenha, sim, força, e só precise mais um pouquinho, mais um pouquinho.

Pensar a contrapelo de si mesmo.
O cinismo deixa de ser uma atitude meramente subjetiva - um arbítrio, a bem dizer - para se tornar quase uma necessidade, sobretudo em uma sociedade como a brasileira, sobretudo em uma cidade como São Paulo.
Ainda mais para aqueles que percorrem mais esferas que pedem lógicas de atuação completamente distintas entre si.
Do bom e velho "Frevo", Daud, onde pudemos exercer uma lógica mais coerente com aquilo com que concordamos - desde que possamos pagar a conta, bem entendido -, descemos ou subimos pelas pernas da ANTIGA Augusta que já não permite a mesma coerência - desde não possamos pagar a conta, bem entendido.
Belo papo ontem, repitamos!
Abraço,
Flavião
Mas não seria esse momento, em que nos descobrimos mais banais do que nos pensávamos, uma possibilidade da maravilhosa guinada que nos faz sentirmo-nos menos culpados, menos sozinhos e com mais vontade de ter outro tipo de vivência nesse mundo que produz pessoas que se sentem mal por não estarem adequadas à norma? O Jurandir Freire Costa fala que talvez as pessoas precisassem se sensibilizar com outras coisas que não as realizações das vidas privadas, como por exemplo a aspiração de realização de um amor romântico que nunca chega.
De minha parte confesso que, aos 19 anos, quando li o Sartre dizer que todo mundo era angustiado e se sentia incompleto passei a ver o sol nascer mais bonito.
Ps: daqui a pouco venderei poesia nos bares da Augusta.
Pensar contra si mesmo, acho que entendo o que vc quer dizer. O derrisório, porém, é que poderia levar ao cinismo, algo como um "eu sei que estou errado, mas mesmo assim, faço". Que seria fazer, não pensar, contra si mesmo, e que não é nada novo. Aliás qual seria a diferença entre um cinismo assim, e uma hipocrisia? Vê? Nem todas as categorias estão bem fundamentadas. Pensar no cinismo como uma necessidade pressupõe que as contradições que nos obrigam a ele estão expostas. Só que não estão, o cinismo sempre carrega junto um tanto de recalque. Ele faz que não se importa, que não faz diferença: mas sabe que no fundo faz, só não está à altura dessa diferença. Por isso, sim, pensar contra si mesmo, acho que podemos chamar isso de um remédio.
Precisa dessa sensibilidade pra evitar de ver o sol nascer quadrado. Mas ela também é aquilo que mais engana, cf. Nietzsche, ao contrário da angústia, que é o que nunca engana, cf. Lacan. Tem uma dialética sofisticada, aí, acho que vc percebeu exatamente onde tá o nó dela. O Nietzsche tb se perguntava (talvez na Gaia Ciência?): por que sempre tão sozinho? Acho que nessas questões é preciso ter sempre uma prova, porque nunca é evidente em que lado vc está: é uma revolução isso que vc propõe, ou simplesmente vc desistiu no meio do caminho? Não estar sozinho, ou culpado, não prova nada, assim como estar sozinho, ou culpado, também não prova. Precisa então dessa sensibilidade, mas de onde tirá-la, sabe? Acho que a questão está nisso. Você sabe.