O que quer dizer derrisório, derrisão?

| 4 respostas

Até uma certa altura da vida, não saber o que fazer de certos impulsos, sentimentos, acreditar-se deslocado, isolado, único. E acreditar que é preciso revolucionar algo, criar algo, para conter isso que não se contém em parte alguma. E daí uma posição muito particular sobre o que é adequado e não adequado.

Num certo momento, porém, alguma coisa muda: vamos deixando de nos sentir inadequados, ou vamos mesmo deixando de ser inadequados. Ou então diminui a urgência de fazer o inadequado, ou descobrimos que nossa inadequação também tinha nome, que a teoria descobriu o lugar dessa inadequação, que portanto ele não mais precisa ser criado, mas simplesmente ocupado. Aquilo que era estranho passa a ter nomes comuns. O que descobrimos um dia com espanto, é de repente reconhecido como o familiar, o banal: nossa ingenuidade nos impedia de reconhecê-lo antes. É evidente, agora o sabemos, que nosso autodidatismo fôra deficiente, ou fomos demais petulantes. O que nos causava surpresa, agora o sabemos, já foi considerado pelas categorias aceitas, já foi pensado, medido, considerado. Apenas nós não o sabíamos, por ignorância, por imaturidade.

Concluímos, como resultado desse amadurecimento, que o nosso pensamento não tinha tanta força, tanta originalidade quanto acreditávamos. Ele não vai abrir novas portas, não vai construir --talvez nem mesmo descobrir-- novos mundos. Há que ter metas mais modestas, mais saudáveis. Não se pode aos trinta e dois, como aos vinte, querer conquistar o mundo.

Ou talvez eu apenas esteja cansado, de ter bebido demais ontem à noite, dormido pouco, e ainda ter que trabalhar.

Talvez nosso pensamento tenha, sim, força, e só precise mais um pouquinho, mais um pouquinho.

4 respostas

Pensar a contrapelo de si mesmo.

O cinismo deixa de ser uma atitude meramente subjetiva - um arbítrio, a bem dizer - para se tornar quase uma necessidade, sobretudo em uma sociedade como a brasileira, sobretudo em uma cidade como São Paulo.

Ainda mais para aqueles que percorrem mais esferas que pedem lógicas de atuação completamente distintas entre si.

Do bom e velho "Frevo", Daud, onde pudemos exercer uma lógica mais coerente com aquilo com que concordamos - desde que possamos pagar a conta, bem entendido -, descemos ou subimos pelas pernas da ANTIGA Augusta que já não permite a mesma coerência - desde não possamos pagar a conta, bem entendido.

Belo papo ontem, repitamos!

Abraço,

Flavião

Mas não seria esse momento, em que nos descobrimos mais banais do que nos pensávamos, uma possibilidade da maravilhosa guinada que nos faz sentirmo-nos menos culpados, menos sozinhos e com mais vontade de ter outro tipo de vivência nesse mundo que produz pessoas que se sentem mal por não estarem adequadas à norma? O Jurandir Freire Costa fala que talvez as pessoas precisassem se sensibilizar com outras coisas que não as realizações das vidas privadas, como por exemplo a aspiração de realização de um amor romântico que nunca chega.

De minha parte confesso que, aos 19 anos, quando li o Sartre dizer que todo mundo era angustiado e se sentia incompleto passei a ver o sol nascer mais bonito.

Ps: daqui a pouco venderei poesia nos bares da Augusta.

Deixe uma resposta

Sem menções

URL da menção: http://minhavidacultural.net/cgi-bin/mt/mt-tb.cgi/24

últimas respostas

  • Rafael: Precisa dessa sensibilidade pra evitar de ver o sol nascer quadrado. Mas ela também [...]
  • Rafael: Pensar contra si mesmo, acho que entendo o que vc quer dizer. O derrisório, [...]
  • Natália: Mas não seria esse momento, em que nos descobrimos mais banais do que nos [...]
  • Flávio Ricardo Vassoler: Pensar a contrapelo de si mesmo. O cinismo deixa de ser uma atitude meramente [...]
Powered by Movable Type 5.12

Archivos