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    <title>Minha Vida Cultural</title>
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    <subtitle>todo mundo sabe que eu não cozinho por medo de me envenenar</subtitle>
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    <title>Ser saqueado</title>
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    <published>2012-04-25T14:05:47Z</published>
    <updated>2012-04-25T14:24:37Z</updated>

    <summary>Existem poucos prazeres nessa vida que se comparem a ser saqueado por um pirata-poeta.E ainda tem gente que quer acabar com o contrabando, puta falta de sacanagem, é o que é....</summary>
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        <name>Rafael</name>
        
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        <![CDATA[Existem poucos prazeres nessa vida que se comparem a ser saqueado por um pirata-poeta.<br />E ainda tem gente que quer acabar com o contrabando, puta falta de sacanagem, é o que é.<br /> ]]>
        
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    <title>Moleques</title>
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    <published>2012-04-18T22:40:19Z</published>
    <updated>2012-04-16T22:51:26Z</updated>

    <summary>Muito me entristece na vida não termos nunca deixado de ser moleques, de maneira geral, e no restante dos casos não termos chegado a sê-los....</summary>
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        <![CDATA[<p>Muito me entristece na vida não termos nunca deixado de ser moleques, de maneira geral, e no restante dos casos não termos chegado a sê-los.</p>]]>
        
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    <title>Rede social</title>
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    <published>2012-04-16T11:55:37Z</published>
    <updated>2012-05-03T22:26:54Z</updated>

    <summary>Comecei uma elaborada postagem a respeito das redes sociais, porque dois amigos saíram do facebook recentemente, com motivações várias. Um deles voltou (era um teste?), e no fim acho que não tenho muito ou quase nada a dizer sobre o...</summary>
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        <![CDATA[<p>Comecei uma elaborada postagem a respeito das redes sociais, porque dois amigos saíram do facebook recentemente, com motivações várias. Um deles voltou (era um teste?), e no fim acho que não tenho muito ou quase nada a dizer sobre o assunto.</p>
<p>Dessa maneira, proponho, ao contrário, que os queridos leitores deste blog digam, nas respostas, um argumento para que estejam nessas redes, e um argumento pelo qual sairiam delas (sim, o pressuposto é de que todos estão em alguma; se não, tanto melhor, <em>mutatis mutandi</em>).</p> ]]>
        
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    <title>Tornar-se psicanalista</title>
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    <published>2012-04-09T14:23:35Z</published>
    <updated>2012-04-18T16:12:07Z</updated>

    <summary>Freud tem um texto bastante importante, mas pouco lembrado, que se chama &quot;Por que a psicanálise não é uma visão de mundo&quot;. Neste texto, ele deixa claro que antes de tudo a psicanálise é uma prática, que se revê a...</summary>
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        <![CDATA[<p>Freud tem um texto bastante importante, mas pouco lembrado, que se chama "Por que a psicanálise não é uma visão de mundo". Neste texto, ele deixa claro que antes de tudo a psicanálise é uma prática, que se revê a partir dos seus resultados, não uma ciência que cria hipóteses e depois vai fazer experimentos para confirmá-los ou não.</p>
<p>Na psicanálise, os conceitos, ou como eu prefiro chamar, as categorias são criadas após a observação clínica, e não antes dela, e vão sendo afinadas conforme a clínica se desenvolva, e só depois disso podemos "esperar" alguma coisa numa nova observação. O olhar novo, de quem espera a surpresa, é instrumento fundamental para o psicanalista. Por causa disso, a psicanálise não é uma visão de mundo: pouco antecipa, ou nas palavras do próprio Freud: "a psicanálise se contenta em explicar por que alguma coisa acontece, e evita fazer conjecturas a respeito de por que algo deixou de acontecer."</p>
<p>Dito isso, o que é de todo modo bastante sutil, é evidente que antes da própria prática não tenhamos esse cuidado, mas ao contrário, acreditemos que sim, podemos usar o corpo teórico da psicanálise para entender o mundo, p. ex., ler sobre o inconsciente e o superego num livro e tentar encontrar essas coisas na realidade, fazer suposições e interpretações etc., acreditando com isso ter um poder especial para explicar o mundo e o proceder humano.</p>
<p>Tal expectativa é falsa, esse é o sentido da afirmação de que a psicanálise não é uma visão de mundo, ou <em>Weltanschaaung</em>. Também por isso Freud tinha o cuidado de afirmar que não podia fazer interpretações (de sonhos, de atos falhos, de sintomas) a não ser baseando-se nas interpretações que os próprios sujeitos faziam a respeito dessas produções de seu inconsciente. Fácil ver que a opção epistemológica e ética, na psicanálise, se confundem e se sobrepõem.</p>
<p>Tal expectativa é falsa, repito, mas é o que, na maior parte dos casos, nos mete a querer ser psicanalistas. Acreditar que poderemos explicar mais e melhor as coisas, que não viveremos num mundo tão cercado de ignorância e não saberes. Tornar-se psicanalista é abandonar essa expectativa, mas foi ela quem primeiro nos colocou na trilha. Um dos muitos paradoxos que enfrentamos nessa profissão (profissão? é uma profissão impossível, sem dúvida, por causa justamente desses paradoxos).</p><p>
</p><p>Mas, como outros, esse também tem uma  solução prática: <em>solvitur ambulando</em>. Resolve-se caminhando.</p>]]>
        
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    <title>Da buzina</title>
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    <published>2012-03-19T14:58:30Z</published>
    <updated>2012-04-12T18:13:37Z</updated>

    <summary>A buzina é uma instituição de alguns países, mais que de outros. Na Índia, por exemplo, segundo me contam, o trânsito --de carros, de carroças, de vacas, de veículos estranhos-- só é possível graças à buzina. As vacas não buzinam,...</summary>
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        <![CDATA[<p>A buzina é uma instituição de alguns países, mais que de outros. Na Índia, por exemplo, segundo me contam, o trânsito --de carros, de carroças, de vacas, de veículos estranhos-- só é possível graças à buzina. As vacas não buzinam, mas são sagradas, de maneira que todas as coisas obedecem a uma certa lógica, ainda quando aparentam não ter lógica nenhuma.</p>
<p>Em São Paulo, a lógica é outra. Buzinar é indelicado. É um sinal de incompreensão, de intolerância. É uma atitude egoísta, um gesto isolado, a expressão privada de um indivíduo impaciente que pretende ser dono de algo, detentor do que chamávamos, na faculdade, um direito real, ou seja, um bem, contra todos (erga omnes) os outros que pudessem igualmente pretendê-lo.</p>
<p>Escrevo à noite, numa quarta-feira, e o acesso à ZL foi desviado. Há vários dias o trânsito vem se agravando -- vários meses, sistemicamente, mas agora de maneira aguda. Ouço buzinas, muitas delas, na rua, embora já passe da meia-noite. Muitas pessoas têm optado por retardar sua volta para casa, diariamente. Não por minutos, mas por horas. O trânsito das seis da tarde, aqui, se estende até as dez, onze, e agora doze horas.</p>
<p>Neste momento, portanto, as pessoas decidiram que não aguentam. Isso é demais. Isso passou da conta. É evidente que, amanhã cedo, pegarão seus carros e repetirão a viagem. À noite, concluirão a mesma coisa: não aguentam. Isso é demais. Memórias curtas, talvez.</p>
<p>Mas agora, pelo menos agora, decidem que não suportam mais. E alguém vai ter que escutá-las, porque isso é demais, passou da conta. E buzinam. Porque alguém vai ter que escutá-las.</p>
<p>A buzina, em São Paulo, é uma forma de protesto, que debilmente tenta se fazer reconhecer.</p>]]>
        
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    <title>A bidimensionalidade d&apos;O Artista</title>
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    <published>2012-03-15T05:27:03Z</published>
    <updated>2012-03-15T23:58:11Z</updated>

    <summary>&quot;O artista&quot;, melodrama em estado bruto. Sem o refinamento dos efeitos visuais e especiais e apenas com os efeitos sonoros que uma orquestra executando ao vivo poderia oferecer, não resta senão às caras e bocas dos atores produzir assim, às...</summary>
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        <![CDATA[<p>"O
 artista", melodrama em estado bruto. Sem o refinamento dos efeitos 
visuais e especiais e apenas com os efeitos sonoros que uma orquestra 
executando ao vivo poderia oferecer, não resta senão às caras e bocas 
dos atores produzir assim, às escâncaras, as pausas, os suspenses e as 
chaves de identificação de que se serve qualquer folhetim hollywoodiano.</p>
<p>Em suma, fica bem claro. Mas esse tema de expor a estrutura do clichê 
já não é também um clichê? Sobretudo com o uso desse 
"semidistanciamento", que, ao mesmo tempo em que revela, adere? Não 
daria nem uma medalha de lata.</p>
Ninguém pensa sozinho, e um escritor tem também o espírito dos seus amigos, não só o seu, como dizia o Nietzsche. Assim publico, sem qualquer autorização, essa resenha de um grande amigo meu. Assim que chegar a autorização, deixo o nome dele também. [em tempo] Pronto, aqui está: Marco Antonio de C. Granieri, grande poeta, embora bissexto (pior do que literalmente).<br />]]>
        
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    <title>Não tem nada melhor que uma periguete</title>
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    <published>2012-03-15T02:38:10Z</published>
    <updated>2012-04-06T14:23:06Z</updated>

    <summary>Por isso é preciso ficar atento, e não confundir: a periguete é aquela que está interessada em trepar, não fazendo muita questão de com quem, não aquela que está interessada em casar não fazendo muita questão de com quem....</summary>
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        <![CDATA[<p>Por isso é preciso ficar atento, e não confundir: a periguete é aquela que está interessada em trepar, não fazendo muita questão de com quem, não aquela que está interessada em casar não fazendo muita questão de com quem.</p>]]>
        
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    <title>A vida cultural numa época técnica</title>
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    <published>2012-03-12T21:39:40Z</published>
    <updated>2012-04-05T08:17:57Z</updated>

    <summary>&quot;É assim: vivemos numa época técnica, por isso estamos muito mais ocupados em compreender o como-fazer das coisas, do que ocupados com a finalidade delas. Tudo se torna um pouco bidimensional, essa palavra que eu uso, quer dizer, o modo...</summary>
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        <![CDATA[<p>"É assim: vivemos numa época técnica, por
isso estamos muito mais ocupados em compreender o como-fazer das
coisas, do que ocupados com a finalidade delas. Tudo se torna um
pouco bidimensional, essa palavra que eu uso, quer dizer, o modo de
fazer as coisas está no mesmo plano do próprio fazer. Por exemplo,
é mais fácil ganhar a vida como crítico literário do que como
poeta. Eu mesmo, não dirijo filmes, não sou ator, não escrevo para
o cinema, e vivo melhor do que todos eles que fazem isso. São as
coisas bidimensionais as que mais importam, porque numa época
técnica como a nossa, é só isso que se entende. É mais importante
assistir o making-of dos filmes que os filmes mesmo. É mais
importante ler o diário de como se escreveu A montanha mágica, ou o
Grande Sertão: Veredas, que ler os livros mesmo. Numa sociedade de
estratos -- onde existe aristocracia, nobreza e servidão, você
deve se lembrar das aulas -- o primeiro critério de separação
entre as pessoas é moral: daí temos, de um lado, o crime, e do
outro sua antítese, a hipocrisia. Mas numa sociedade como a nossa,
dividida em classes, em que a moral já não goza de tanta moral
assim, o que é preciso para diferenciar as gentes é a beleza: por
isso inventam, para que o critério funcione, a feiúra; junto com
ela, sua contraparte, seu antídoto: o cinismo etc. e tal. O
imperdoável, hoje, não é o crime, o verdadeiro excluído é o
kitch, ou o brega..."</p>
PS.: Da mesma forma se explicam os reality shows: aparentemente julgamos conflitos morais, só que não, o que interessa é o como-fazer da celebridade (o tornar-se celebridade, ou o vir-a-ser celebridade). Claro que, com isso, já não são mais propriamente celebridades (falta-lhes a nobreza, que se perde no processo, ou melhor: porque era inexistente, possibilita o processo).<br />PPS.: lembro de uma entrevista no Jo Soares, contada por um amigo: um príncipe da nossa ex-família real conta que era abstêmio em relação ao sexo, pois não havia mulher com quem pudesse casar, no momento, e era necessário manter a linhagem, motivo pelo qual era ainda virgem, também. Jo Soares começa a tirar um sarro, apoiado pela plateia, mas de maneira grosseiramente típica, ao que o príncipe responde: Por que você precisa de claque? E o Jo Soares, mas não, não é claque, estão se divertindo. O príncipe se limita a sustentar, com a tranquilidade de quem não precisa provar nada pra ninguém: É claque.<br />PPS.: de tudo isso conclui-se, finalmente, que tudo aquilo que é autorreferente merece, na atualidade, mais público do que o resto. O texto acima, inclusive, é um pedaço do meu livro, mas os comentários posteriores não cabiam nele, e vieram para cá. Bidimensional, portanto. Ainda estamos, em arte, muito mais próximos do que gostaríamos do mesmo patamar do próprio Dom Quixote e do sarcasmo que inevitavelmente o acompanha.<br />

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    <title>Olhando para trás</title>
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    <published>2012-03-06T02:10:52Z</published>
    <updated>2012-04-16T08:40:29Z</updated>

    <summary><![CDATA[&lt;metalinguagem&gt;Não é que minha vida cultural esteja parada. Como estaria, se eu continuo comendo, trepando, respirando? Porém a capacidade de escrita não acompanha sempre a capacidade de apreensão.&lt;/metalinguagem&gt;Mas olhando para trás, posso lembrar de algumas experiências relevantes e suficientemente tradicionais...]]></summary>
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        <name>Rafael</name>
        
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        <![CDATA[<p><font style="font-size: 0.64em;"><code>&lt;metalinguagem&gt;</code></font>Não é que minha vida cultural esteja parada. Como estaria, se eu continuo comendo, trepando, respirando? Porém a capacidade de escrita não acompanha sempre a capacidade de apreensão.<font style="font-size: 0.8em;"><font style="font-size: 0.8em;"><code>&lt;/metalinguagem&gt;</code></font><br /></font></p><p>Mas olhando para trás, posso lembrar de algumas experiências relevantes e suficientemente tradicionais para que eu possa compartilhar aqui sem medo de ser indecente. Tradicionais mesmo. A primeira delas, foi ter assistido ao Oscar.</p><p>Dizem que os filmes com mais prêmios eram muito bons, muito belos. Como não vi, só posso criticar: filmes que retomavam, em mais de um sentido, o cinema de antigamente. Uma espécie de resgate de uma tradição, ou sua tentativa.</p><p>Enquanto escrevo escuto, murmurando em meus ouvidos como a canção distante de uma velha amiga, o novo disco dos Cranberries, chamado Roses, que tem uma sonoridade que me faz lembrar, imediatamente, o som que eles faziam na época de <i>no need to argue</i>, justamente o disco que me fez me apaixonar por eles. É gostoso ouvir um som absolutamente novo, fresco, que ao mesmo tempo carrega a carga emocional de mais de dez anos atrás. Lembro ainda a loja onde eu comprei aquele disco. Naquela época, a gente comprava discos, e eu ia em shoppings. Nesse dia, em especial, só porque um pianista que eu ouço desde criança ia tocar no saguão. Mas costumava ir por outros motivos mais classicamente voyeuristas também.</p>]]>
        <![CDATA[<p>E já que não compramos mais discos (as lojas que eram boas foram 
fechando, vieram os franceses, a mesada já não dava e, mais tarde, nem 
mesmo o salário, eles mataram a galinha dos ovos de ouro, mataram sim), 
baixei mês passado o Old Ideas, novo disco do Leonard Cohen (vou gravar 
pra vc, Ange, levo no findessemana), que me trouxe a mesma impressão, 
curioso, isto é, da mesma época, ele soa como se fosse uma versão atual,
 menos gasta, daquele primeiro Songs. A voz dele, sim, mais gasta, mas 
também mais profunda, mais experiente, mais certeira, mais confiante. 
Tem algo profundamente sensual nisso, claro, não é preciso ir até as 
entrelinhas. Talvez eu devesse prometer pra outras mulheres uma cópia 
também? Ou homens, já que, como disse um amigo meu, todo mundo sabe que é
 só por medo de dar o cu que a gente não é bissexual. Do que eu 
discordo, mas não vem ao caso, porque a frase ficou boa então mais vale 
concordar. De todo modo, é meu disco de ouvir sozinho, porque Leonard 
Cohen continua sendo o bom e velho poeta das músicas de corno. O Wando 
canadense, por assim dizer, mas o Wando que não passou pela ditadura e 
nem morreu antes da hora.</p>
<p>Então sim, começou 2012, é a notícia já velha que eu vim dar. Porque 
se 2011 foi o ano da Primavera, 2012 já começa no outono, e eu acho que é
 porque tem gente demais temendo o inverno. Li por aí que esses acham 
que o povo aproveitou o verão sem se preocupar, me soa aquela história 
com a Cigarra. Uma história muito antiga, do Velho Mundo, vocês sabem.</p>
<p>E gostaria de dizer, assim, que no Novo Mundo é diferente, que as 
coisas estão se renovando. Mas tem sempre um vampiro à espreita, né, 
querendo segurar as pontas, os velhos hábitos, sugar nosso  
fresco sangue, pra se manter vivo, quando todos já sabem que passou da hora de 
ser enterrado de vez. Vampiro mal aclimatado, me parece, mas quem sou eu? Eu, 
que nem sou medroso, mas me borro de medo só de pensar nisso?</p>
<p>Não, sou alguém que se apega ao passado, ou pelo menos ao futuro que, do passado, parecia se aproximar.</p><p>Enfim, não me apego não, mas quem, dos prudentes, haverá de me acompanhar?<br />
</p>]]>
    </content>
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    <title>Constatação do óbvio</title>
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    <published>2012-02-22T12:40:00Z</published>
    <updated>2012-03-02T17:20:18Z</updated>

    <summary>Todo mundo devia, pelo menos de vez em quando, limpar o próprio banheiro, nem que fosse pra se lembrar de que é também capaz de fazer umas belas cagadas. Sed contra: . Somos todos românticos, menos os que não são....</summary>
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        <name>Rafael</name>
        
    </author>
    
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        <![CDATA[<p>Todo mundo devia, pelo menos de vez em quando, limpar o próprio banheiro, nem que fosse pra se lembrar de que é também capaz de fazer umas belas cagadas.</p>
Sed contra: <a href="http://minhapernadepau.wordpress.com/2012/03/02/cronica-de-uma-sexta-feira-quente/"><Crônica de uma sexta-feira quente"</a>. Somos todos românticos, menos os que não são.]]>
        
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    <title>As especiarias orientais</title>
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    <published>2012-02-14T01:29:17Z</published>
    <updated>2012-02-17T19:14:00Z</updated>

    <summary>Minha amiga gosta de me dar presentes estranhos, trazidos de lugares estranhos. Hoje estava lendo um livro -- um presente prosaico, de outra pessoa querida -- a respeito da transmissão, pela herança, por várias gerações, de uma coleção de netsuquês,...</summary>
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        <![CDATA[<p>Minha amiga gosta de me dar presentes estranhos, trazidos de lugares estranhos. Hoje estava lendo um livro -- um presente prosaico, de outra pessoa querida -- a respeito da transmissão, pela herança, por várias gerações, de uma coleção de netsuquês, pequenas pecinhas ou esculturas de madeira ou marfim, esmaltadas, representando figuras animais ou cenas campestres, fabricadas tradicionalmente no Japão. Justamente lia uma passagem sobre a febre em Paris com a arte japonesa, após a abertura para o Ocidente, o gosto artístico dos parisienses buscando o exótico, o luxuoso, o refinado. E de repente pensei nos meus presentes estranhos, um crocodilo de madeira, um gorro, e uma corujinha de pedra-sabão que eu mesmo trouxe da Bolívia e me dei conta de que o estranho, nesses presentes, não era o exótico, o luxuoso, o refinado neles, mas sim, surpresa!, o serem estranhamente familiares. Ficou claro, então, para mim, a razão da sanha ocidental pelas riquezas do Oriente, a seda, a noz moscada, a pimenta-do-reino. Sem sombra de dúvidas a batata peruana fez mais pela culinária centro-europeia que todas as Cruzadas juntas, o que não impediu as expedições às verdadeiras Índias, as Orientais. Havia, sim, um pouco de Cruzada nisso, um pouco de jesuitismo, talvez montado na boleia... a razão principal, entretanto, era o refinamento, que se em Roma já se esgotara (e ainda não tivera o seu renascimento), nunca fôra a herança dos bárbaros europeus de qualquer estirpe, seja visigoda, seja gálica -- talvez eu abrisse alguma exceção, moderada, para os celtas, mas sejamos prudentes, em se tratando de bárbaros. Era preciso buscar o refinamento no Oriente, a razão de tão árduos trabalhos que sofreram os Aquivos e os não-aquivos também. Minha súbita compreensão, porém, se opõe à ideia comum de que era preciso alcançar o distante Oriente para obter os necessários items, afirmando, em seu lugar, que os items perfeitamente supérfluos, porque só se obtinham no distante Oriente, à custa de trabalhos sem conta, passaram à categoria de necessários.</p>
PS.: tanto os netsuquês quanto as especiarias eram items caríssimos, precisamos lembrar. Possuí-los dava status, era sinal de poder e conferia poder. Com o valor de uma tulipa, à sua época, era possível comprar-se uma mansão ou uma propriedade no campo, é o que se conta.]]>
        
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    <title>As pessoas surpreendem</title>
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    <published>2012-02-08T20:44:51Z</published>
    <updated>2012-02-08T21:00:14Z</updated>

    <summary>As pessoas surpreendem, sempre digo a mim mesmo. E continuam surpreendendo em não surpreenderem jamais....</summary>
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        <name>Rafael</name>
        
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        <![CDATA[<p>As pessoas surpreendem, sempre digo a mim mesmo. E continuam surpreendendo em não surpreenderem jamais.</p>]]>
        
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    <title>A política para o brasileiro</title>
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    <published>2012-02-01T19:47:05Z</published>
    <updated>2012-04-06T03:31:45Z</updated>

    <summary>A política é para o brasileiro como a ciência para o autodidata....</summary>
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        <name>Rafael</name>
        
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        <![CDATA[<p>A política é para o brasileiro como a ciência para o autodidata.</p>]]>
        
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    <title>Vontade de máquina</title>
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    <published>2012-01-26T13:04:36Z</published>
    <updated>2012-01-26T13:36:10Z</updated>

    <summary>canalha adj.2g. 1 relativo a ou próprio de pessoa vil, reles. adj.2g,s.2g. 2 que ou aquele que é infame, vil, abjeto; velhaco. s.f. 3 pej. conjunto de pessoas infames, abjetas, desprezíveis. 4 grupo de crianças, criançada (por onde anda a...</summary>
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    <category term="psicanálise" label="psicanálise" scheme="http://www.sixapart.com/ns/types#tag" />
    
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        <![CDATA[<b>canalha</b> <i>adj.2g. </i><b>1</b> relativo a ou próprio de pessoa vil, reles. <i>adj.2g,s.2g.</i> <b>2</b> que ou aquele que é infame, vil, abjeto; velhaco. <i>s.f.</i> <b>3</b> <i>pej.</i> conjunto de pessoas infames, abjetas, desprezíveis. <b>4</b> grupo de crianças, criançada (<i>por onde anda a c., a bulha é grande</i>). Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa<br /><br />
<p>Lembro de um episódio dos Simpsons, não lembro inteiro, só de uma cena. Os irmãos Lisa e Bart estão brigando muito entre si, e em determinado momento o Bart diz: vou girar os braços e andar na sua direção, se você não sair do caminho, a culpa será sua, estou avisando. Mas a Lisa não gosta nada disso, e diz: eu não vou sair do lugar, e vou ficar dando tapas à frente, se você for pego por um, a culpa será sua, estou avisando.</p>
<p>E ambos cumprem, Bart segue andando girando os braços, Lisa parada com seus tapas no ar, e quando se encontram só ouvimos o barulho alto dos dois se trombando, e corte de cena.</p>]]>
        
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    <title>466° aniversário de São Paulo</title>
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    <published>2012-01-25T02:59:49Z</published>
    <updated>2012-04-16T17:42:47Z</updated>

    <summary>Queria dizer &quot;eu bem que avisei&quot;. Mas a rigor eu não avisei. Pelo simples motivo de que, pro bem e pro mal, não podia sequer imaginar. E nisto está o problema: passamos tempo demais ocupados em distinguir o bem e...</summary>
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        <![CDATA[<p>Queria dizer "eu bem que avisei".</p>
<p>Mas a rigor eu não avisei. Pelo simples motivo de que, pro bem e pro mal, não podia sequer imaginar.</p>
<p>E nisto está o problema: passamos tempo demais ocupados em distinguir o bem e o mal, quando tudo de que necessitamos é um pouco mais de imaginação.</p>
PS.: quando uma moça faz mais de quarenta anos, todo mundo evita perguntar quantos, exatamente. Mas quando uma senhora quatrocentona faz aniversário, ninguém nem presta mais atenção nos números.<br />PPS.: é pecado eu não dizer sobre o que é que eu deveria ter avisado? É que não consigo falar, há algumas contas que não fecham, e contagens que não puderam ser feitas. E em certos assuntos, os números são fundamentais.<br />]]>
        
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