últimas jornadas dos dies irae

A bidimensionalidade d'O Artista

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"O artista", melodrama em estado bruto. Sem o refinamento dos efeitos visuais e especiais e apenas com os efeitos sonoros que uma orquestra executando ao vivo poderia oferecer, não resta senão às caras e bocas dos atores produzir assim, às escâncaras, as pausas, os suspenses e as chaves de identificação de que se serve qualquer folhetim hollywoodiano.

Em suma, fica bem claro. Mas esse tema de expor a estrutura do clichê já não é também um clichê? Sobretudo com o uso desse "semidistanciamento", que, ao mesmo tempo em que revela, adere? Não daria nem uma medalha de lata.

Ninguém pensa sozinho, e um escritor tem também o espírito dos seus amigos, não só o seu, como dizia o Nietzsche. Assim publico, sem qualquer autorização, essa resenha de um grande amigo meu. Assim que chegar a autorização, deixo o nome dele também. [em tempo] Pronto, aqui está: Marco Antonio de C. Granieri, grande poeta, embora bissexto (pior do que literalmente).

Vontade de máquina

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canalha adj.2g. 1 relativo a ou próprio de pessoa vil, reles. adj.2g,s.2g. 2 que ou aquele que é infame, vil, abjeto; velhaco. s.f. 3 pej. conjunto de pessoas infames, abjetas, desprezíveis. 4 grupo de crianças, criançada (por onde anda a c., a bulha é grande). Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa

Lembro de um episódio dos Simpsons, não lembro inteiro, só de uma cena. Os irmãos Lisa e Bart estão brigando muito entre si, e em determinado momento o Bart diz: vou girar os braços e andar na sua direção, se você não sair do caminho, a culpa será sua, estou avisando. Mas a Lisa não gosta nada disso, e diz: eu não vou sair do lugar, e vou ficar dando tapas à frente, se você for pego por um, a culpa será sua, estou avisando.

E ambos cumprem, Bart segue andando girando os braços, Lisa parada com seus tapas no ar, e quando se encontram só ouvimos o barulho alto dos dois se trombando, e corte de cena.

Judith Butler com Jacques Lacan

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Judith Butler é umas das mais importantes pensadoras do feminismo contemporâneo, e é leitura fundamental para aqueles que pretendem estabelecer um diálogo promissor entre a teoria feminista e a psicanálise.

Sua leitura de Freud e Lacan, além de Levi-Strauss e Foucault é suficientemente ampla e dedicada para nos permitir encontrar neles estratégias teóricas valiosas para a crítica do feminismo, ao mesmo tempo em que é aprofundada e generosa sua leitura das autoras feministas para nos fazer ver algumas das limitações dos instrumentos oferecidos tanto por aqueles, quanto por estas: etapa inicial para permitir avanços em ambos os campos.

Tentarei apresentar aqui (de maneira clara, compreensível, não acadêmica -- sempre uma tentativa) uma leitura de Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade, uma dissertação em que alguns dos maiores impasses da teoria feminista contemporânea são examinados de dentro, fazendo constante referência tanto à psicanálise quanto, principalmente, à proposta genealógica de Foucault, revelando promessas e fracassos presentes nas três abordagens.

Para compreender este livro de leitura difícil, é importante ter em mente, antes de tudo, sua proposta: mais do que a criação de conceitos, seu objetivo é um posicionamento estratégico. Para ela, as relações de gênero são relações de poder, dentro das quais o feminismo aparece como um posto avançado de política emancipatória, de abalo do status quo.

O livro é dividido em três partes. Grosso modo, o problema enfrentado na primeira parte é a noção de identidade e o uso da categoria mulheres, duas estratégias tradicionais do movimento feminista que ela considera contraprodutivas. Para essa crítica, ela se vale da teoria psicanalítica (ou do pós-estruturalismo), na leitura que dela fazem Luce Irigaray e Monique Wittig. Na segunda parte, o problema passa a ser justamente o estruturalismo e a psicanálise, e para sua crítica ela se vale da genealogia foucaultiana. Finalmente, na terceira parte ela faz uso dos instrumentos usados anteriormente para criticar algumas estratégias pontuais do feminismo, seja nas suas abordagens tradicionais, foucaultianas ou psicanalíticas.

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