Judith Butler é umas das mais importantes pensadoras do feminismo contemporâneo, e é leitura fundamental para aqueles que pretendem estabelecer um diálogo promissor entre a teoria feminista e a psicanálise.
Sua leitura de Freud e Lacan, além de Levi-Strauss e Foucault é suficientemente ampla e dedicada para nos permitir encontrar neles estratégias teóricas valiosas para a crítica do feminismo, ao mesmo tempo em que é aprofundada e generosa sua leitura das autoras feministas para nos fazer ver algumas das limitações dos instrumentos oferecidos tanto por aqueles, quanto por estas: etapa inicial para permitir avanços em ambos os campos.
Tentarei apresentar aqui (de maneira clara, compreensível, não acadêmica -- sempre uma tentativa) uma leitura de Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade, uma dissertação em que alguns dos maiores impasses da teoria feminista contemporânea são examinados de dentro, fazendo constante referência tanto à psicanálise quanto, principalmente, à proposta genealógica de Foucault, revelando promessas e fracassos presentes nas três abordagens.
Para compreender este livro de leitura difícil, é importante ter em mente, antes de tudo, sua proposta: mais do que a criação de conceitos, seu objetivo é um posicionamento estratégico. Para ela, as relações de gênero são relações de poder, dentro das quais o feminismo aparece como um posto avançado de política emancipatória, de abalo do status quo.
O livro é dividido em três partes. Grosso modo, o problema enfrentado na primeira parte é a noção de identidade e o uso da categoria mulheres, duas estratégias tradicionais do movimento feminista que ela considera contraprodutivas. Para essa crítica, ela se vale da teoria psicanalítica (ou do pós-estruturalismo), na leitura que dela fazem Luce Irigaray e Monique Wittig. Na segunda parte, o problema passa a ser justamente o estruturalismo e a psicanálise, e para sua crítica ela se vale da genealogia foucaultiana. Finalmente, na terceira parte ela faz uso dos instrumentos usados anteriormente para criticar algumas estratégias pontuais do feminismo, seja nas suas abordagens tradicionais, foucaultianas ou psicanalíticas.
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