últimas jornadas dos dies vergendi

Os Piratas do Tietê e os corsários do PSDB

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Não é só o PSDB, claro: no âmbito federal, o ano começa com vários reveses: a exigência de cadastramento das gestantes para o auxílio maternidade, a transformação das áreas de preservação de florestas em capital especulativo, o veto a dois artigos essenciais das diretrizes para a Política de Mobilidade Urbana. Sem falar em Belo Monte e nos conflitos rurais no Pará e no Mato Grosso do Sul, que me fazem pensar nas disputas territoriais na Palestina de uma maneira bem diferente.

Mas é em São Paulo, nosso querido e odiado Estado, controlado pelo PSDB há mais de duas décadas, que a coisa fica feia. O projeto de revitalização do Centro revela-se, com cada vez mais hipocrisia, não se tratar de nada além de um projeto imobiliário (leia-se: o oposto de um projeto de moradia). Nos últimos meses, tivemos uma escalada nas reintegrações de posse e lojistas instalados na região da Luz se vêem ameaçados de sofrerem desapropriações injustificadas.

anonimo_cracolandia anda.jpg

É preciso lembrar desse histórico, que é o contexto de fundo para as ações mais recentes, coordenadas ou nem tanto, entre a Prefeitura e o Governo do Estado. O prefeito fez um uso oportunista de um incêndio na favela do Moinho, que fica numa região privilegiada de São Paulo, no Bom Retiro, perto da Luz, para pôr em prática um plano antigo de remover as 700 famílias da região, que iniciaram a ocupação da área há já quase 30 anos. Se será ou não bem sucedido, parece que dependerá mais de sorte que de habilidade política. A intenção, porém, está declarada desde 2005 e parece que não é direito da população mais pobre ganhar a vida numa região central.

Por essa mesma razão, a Polícia Militar começou uma operação com o objetivo declarado de "levar dor e sofrimento" à população de viciados da chamada cracolândia (um território supostamente bem demarcado, mas que na verdade se desloca entre os Campos Elíseos e a Luz). Em outras cidades do Estado o movimento é o mesmo. O resultado tem sido desastroso, e promete piorar. Porque começaram a se espalhar por outras regiões da cidade, a Polícia os tem abordado em qualquer lugar, fazendo uso de armamento pesado (ontem à tarde um policial carregava uma metralhadora numa dessas abordagens numa rua paralela à Brig. Luis Antônio). Tenho visto, perto de casa, aumentar gradativamente o número de moradores de rua, e a esses se somaram agora os viciados, que parecem não morar, mas se arrastar indistintamente. O medo e a raiva que essas pessoas exprimem se tornou patente. O outro nome disso é desespero, e como eu já trabalhei com viciados em crack, sei que o motivo desse desespero não é o crack, infelizmente. Talvez a solução fosse mais simples.

Mas eu não estou dizendo nada, apenas aprendendo a ler o que está aí. Quem está dizendo, mais uma vez, é o lindo do Laerte Coutinho, que casualmente postou essa tirinha antiga no seu blog, ontem. Ele diz que a "encontrou". Minha leitura, de resto óbvia, é que ele se deu conta de que já havia feito a tira exata para avaliar a situação atual, e foi "procurá-la". Clique para ampliar, como sempre.

Laerte_piratasSP450.jpg

Alguém disse, e só agora eu entendo: a periferia está em toda parte.

PS.: vi hoje um folheto dobrável com publicidade sobre um lançamento imobiliário na Av. São João. O anúncio dizia: "O Centro é para todos. O estilo é para você". Nem precisavam ser tão explícitos, né? Mas foram.

Anamorfismo na rua

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Kurt Wenner - dies irae.jpg

Isso também é conhecido como Chalk Art, 3D Street Art, Pavement Art ou quase qualquer coisa assim:
http://www.squidoo.com/chalk-art
http://www.metanamorph.com/
http://www.kurtwenner.com/

Recomendação do meu pai, que ficou revoltado com a última Bienal, e com razão. Pra que cortar uma vaca ao meio, se você pode pintar na calçada e fazer parecer que cortou-a ao meio? O ultrarrealismo é sintoma de uma sociedade decadente, mas ele estará redimido se apontar para um outro mundo no lugar. E já que estamos nisso, também recomendo a leitura da entrevista com Haruki Murakami. Ou essa imagem aí não faz pensar na frase do Eduardo Galeano, de que este mundo es una mierda, pero está embarazado de un otro mundo?

They charge, we give: analistas financeiros

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Esta semana fiz uma descoberta surpreendente (para mim, é claro).
Pense comigo: quanto tempo você levará para ler toda a obra do Pierre Bourdieu? E apenas A economia das trocas simbólicas?
E quanto tempo ele mesmo levou para produzir essas pesquisas?

E nós acreditamos que isso deve ser encontrado na internet, sem custos, como parte do patrimônio intelectual da humanidade (ou, pelo menos, de uma parte dela).

E não estamos sós: dê uma olhada lá, por exemplo.

Agora esse é um tipo de conhecimento que anda devagar, e se é preciso crer na resoluta urgência do presente, então precisamos também de um conhecimento que a acompanhe. E ele existe (ou vc achou que este blog era sobre contos de fadas e moinhos?).

E é abundante. Mas, como não há de surpreender, é pago: Marc Faber recommended newsletters.
Dê uma olhada na barra lateral nessa página também, onde está escrito "Investment wisdom".
E lembrem-se que não há ironia quando remeto a "wisdom". Apenas um certo lamento, de estarmos sempre um pouco atrás.

Quinta-feira, dies irae, trago uma resenha de Problemas de Gênero, da Judith Butler. Há que viver compensando.

PS.: hoje de manhã fiz o exercício de ler um jornal impresso sem procurar ampliar noções políticas ou sociológicas, mas procurando oportunidades de negócios, imaginando onde eu poderia investir, caso tivesse o dinheiro. E de repente, pela primeira vez na vida, o jornal inteiro fez sentido, as notícias se encaixavam, a razão de elas estarem ali ou não. As pessoas às vezes se perguntam: o que faz alguma coisa ser notícia. E aí ficou claro. Todos os cadernos são "Economia & Negócios", até o caderno de cultura. É preciso ler assim, porque é para isso que foram escritos. Recomendo vivamente que façam esse exercício.

"Nossa obsessão com a tecnologia"

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A etiqueta sed contra acompanhará todas as coisas publicadas nos dies vergendi. vergendi quer dizer: de vergar-se, e é o que acontece quando trabalhamos demais: já não pensamos, nos vergamos passivamente. Terça-feira é um dia em que tradicionalmente trabalho demais, então chamo as terças-feiras assim.

Aqui virão basicamente links para coisas interessantes, que eu li em meio a muito trabalho, e que por isso mesmo não tive tempo de refletir adequadamente. Mas serão, elas mesmas, boas reflexões, de modo que vou estar me apropriando.

Copiar também é uma forma de trabalho criativo, felizmente cada vez mais explorado. Copiemos, veremos o quanto de reflexão é necessária para tanto!

http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/quando-as-engenhocas-disfarcam-um-mundo-pobre-de-espirito.html

PS.: sed contra significa "mas, em sentido contrário", e era a frase usada pelos universitários medievais, também chamados escolásticos, para introduzir, num debate, uma opinião contrária à tese que era defendida pelo expositor.
A dialética escolástica seguia regras muito rígidas, e uma delas era essa, a de que era preciso, para concluir a validade de uma tese, apresentar antes outra que lhe fosse contrária: e tanto melhor se fosse uma bem construída.
Dizer que eram todos monges, e católicos! Foram eles que inventaram esse processo de argumentação, isto é, foram eles que levaram isso a sério, o que nos gregos era somente uma caricatura, e nos romanos, algo para os tribunais, nunca para a filosofia, muito menos para a religião.

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